segunda-feira, junho 26, 2006

Matando à míngua!


Esse texto eu escrevi pro site da revista de música de cultura independente "O Dilúvio" .





Matando à míngua


Retirado do Manual prático da estagnação (vol 1):
1. Pegue um estilo musical criado na periferia, preferencialmente um que tenha crescido apoiado na divulgação através de rádios comunitárias. Vamos chamar o estilo de hap;
2. Escolha uma linha dentro desse estilo e promova a mesma como tendência dominante;
3. Tire os artistas do hap de dentro das rádios que os promovia anteriormente, crie um novo esquema de divulgação, algo nunca viso antes, baseado em um sistema tipo “pay-per-view” pros grupos, vamos chamar o esquema de PPT (pague para tocar);
4. Crie uma rádio especializada em hap, que funcione no esquema PPT, vamos chamá-la de 106 FM;
5. Crie uma espécie de clube de fidelidade do esquema PPT, algo tipo uma coletânea da “106 FM” para os grupos que mais adquirirem o pacote de execução;
6. Incentive a criação de novos fiéis/ grupos, mas nunca, nunca mesmo incentive os novos grupos a sair do estilo dominante anteriormente citado no item 2;
7. Como apoio deve ser incentivada a criação de mídias auxiliares de apoio, como revistas regionais de circulação nacional que logicamente devem seguir o PPT;
8. Sucesso! A fórmula é garantida, baseada em manuais já usados em grandes êxitos como a Lambada, o Axé, a dança da manivela e outros!
Parece brincadeira, mas foi essa a linha de pensamento usada pelos “empresários” do rap paulista, que conseguiram trazer as piores práticas da grande mídia pra dentro dos meios de comunicação que dizem ser do movimento. Esse manual tem matado o rap a míngua, repetindo uma receita regada pelo sangue que tem escorrido das caixas de som (e não foi pouco). O clube fidelidade promoveu grupos de qualidade duvidosa, eu mesmo cheguei a pensar por um tempo que as resenhas amigáveis pra discos muito ruins eram coisa de compadre, até descobrir a realidade: os grupos de rap haviam entrado no culto ao “Deus Jabá”.
E Jabá cobrou o mesmo preço que cobrou de seus outros seguidores, a alma criativa do rap. A alma foi substituída por uma fórmula: batida lenta + sangue + pose “eusoumaupracaraio”. E quanto mais a fórmula era repetida mais ela se estreitava, até estagnar. Os passos de dança foram substituídos por caras fechadas, o rap desligou-se dos outros três elementos da cultura. Hoje o mercado está parado, a fórmula esgotada, grupos lançando discos, mas os shows são escassos.
Talvez tenha faltado notar no começo da coisa toda que empresários não são ativistas, assim como rappers não são MC´s e rap não é hip hop. Mas como disse Parteum: “É de um império em ruínas que surge um novo bem mais forte.”E uma nova geração está aparecendo pra levar o rap de volta pra onde ele deveria estar, mas isso é assunto pro próximo texto...
Paz e respeito!

Um comentário:

Leco Lendaviva disse...

Tá meu ... isso é texto velho ... copiar e ficar colando no blog é facil ...
coloca uns texto novo ai pô ...